escritos aleatorios


chore, menina
chore para abafar
a chama que queima teu coração

desperte, menina
desperte para se libertar
do sonho que enreda sua vida

fuja, menina
fuja para se esconder
do desejo que sufoca seu ser

reze, menina
reze pela resignação
daquele que te quer

l e m b r a n ç a s

desfocadas
desfalcadas
impertinentes
intransigentes

l e m b r a n ç a s

de fatos
de sonhos
entreabertos
rompidos
com um decreto

l e m b r a n ç a s

do toque
do sorriso
dos lábios
objetos
abjetos

l e m b r a n ç a s

belas
fotografias
recortadas
da vida

Mas todas as cartas de amor são ridículas. Essas palavras ecoavam em seus pensamentos. Esforçava-se por se livrar delas, mas voltavam como no movimento elíptico que os planetas mantêm em volta de um sol tão insignificante quanto o que nos aquece. E era como essas cartas que ele se sentia: ridículo! Pior que isso, sentia-se muito mais como o planeta que circula ao redor do insignificante sol. Há alguns dias não era essa sensação de ridícula insignificância que o afligia, sentia-se como o melhor dos seres, o mais amado, o mais bem-quisto. Palavras de amor, declarações… Ridículas proezas literárias… Tragiversos! – de trágico mesmo. Gostaria de poder, agora, culpá-la, julgá-la, sentenciá-la e puní-la. Mas como fazer tudo isso sem culpar-se, julgar-se, sentenciar-se e punir-se pelo mesmo crime? É o mal do amor, cada um sente de uma forma, e cada qual quer ter o seu quinhão. Terreno malfadado e injusto esse, terra de deleites etéreos. Andava cabisbaixo, guerreando com seus pensamentos. Na sua mente um universo inteiramente diverso se formava, não tão diverso, é verdade, mas alheio à totalidade da realidade, já que nada mais era que uma pífia representação de tudo que ele conseguia interpretar do mundo que lhe rodeava. Nesse momento, a região mais consciente dos seus pensamentos alongava um imenso mar no horizonte e ele se via, com ela, em um mirante, observando o oriente, pareciam estar sozinhos, mas a verdade é que centenas de outras pessoas os rodeavam, centenas de pequenos pensamentos, só esperando pelo momento de intervir na conversa, atrapalhar, dar uma luz, um insight, ou simplesmente tropeçar e rolar mirante abaixo, destroçando-se maravilhosamente. Exatamente nesse momento ele observava aquele imenso mar azul estendendo-se até onde os navios caem vertiginosamente lentos, onde o céu deixa de ser teto para ser um mísero rodapé, e ele cá, tentando articular as palavras, transformando desvarios em explicações sobre os porquês da vida, dando ao seu sol uma chance de lhe dar mais uma chance. E ela sempre com uma saída inexplicável para os não-porquês da vida. Ele sim, ela não, ela talvez. Não, não, com certeza não, mas talvez. E nesse sim, nesse não, nessas sobras de talvez, o seu pequeno universo, talvez só um pouco maior do que o universo que todos nós compartilhamos, ia se desfiando em uma miríade de pensamentos cada vez mais confusos e sem razão de ser. Ali, naquele mirante eterno, as palavras saíam com dificuldade. Não é fácil explicar o inexplicável, ainda mais para si mesmo.

Esse texto está incompleto, é apenas um rascunho. Não gostei do final e provavelmente, se algum dia retomar sua redação, ele será alterado…

Essa cidade me condena. Me condena ao atraso. “Que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver?”, diz a letra da canção. Um transeunte passa. Cabeleira desvairada, camisão até o joelho, sujo, imundo. Um mendigo. O dono da banca ri, com o companheiro ao lado, fitando o transeunte. O que há de divertido em um mendigo? Essas pessoas me condenam. Me condenam ao atraso.

a noite silencia… vadia… ela me cala
o peito insiste em ir e vir…
as garrafas rolam
não há nada que as cale…
para elas a noite é só noite
o dia vai se aproximando
e a noite se cala mais e mais
um silêncio angustiado
a manhã se aproximando
e todos dormem
mas as garrafas rolam… rolam…
se não em si
rolam dentro de quem as consumiu…
e elas rolam… rolam e rolam…
a noite pesa…
o silêncio pesa…
uma noite insustentável…
o que é a noite?
as horas passam e o tormento arrefece toda e qualquer possibilidade de esperança…
é só a luz de um novo dia…
a luz que insiste em não aparecer
a luz que hesita
a luz que tem hora marcada
o que é o sol se não a hora marcada de todo o fim de madrugada?
a luz ainda não chegou…
a luz ainda está longínqua…
a luz não chegou…
como nossos sonhos… eles nuncam chegam…
sempre a penumbra não identificada de nossos sonhos…

 

escrito em 25 de setembro de 2006

Só um sentimento me incomoda, este sentimento é a solidão. É o único que eu não posso controlar. Posso evitar amar alguém ou não. Posso controlar meus níveis de felicidade ou tristeza. Liberar ou conter meu ódio, mas a solidão foge ao meu controle. Posso amar alguém sem ser correspondido, posso odiar alguém que nunca vi, Posso ficar feliz por estar vivo, bem como triste por ainda não ter partido. Mas a sensação de estar só, de não ter alguém com quem contar em alguns momentos, este sentimento, sim, eu não posso controlar. Depende tanto das pessoas que me rodeiam e justamente por isso foge-me ao controle.

a sinceridade das minhas palavras escondem por trás de si desejos tão sórdidos e intenções tão mesquinhas que chego a desconfiar de tal sinceridade. Seria ela espontânea? Seria digna de confiança? Ou apenas um meio de conseguir o que desejo através da conquista da confiança alheia? Pior, não seria esta sinceridade uma traição do meu imenso desejo de manter-me calado?

em alguns cadernos encontro alguns raros escritos sobre sensações de determinados momentos de minha vida (como a passagem acima). os que se mostrarem atuais serão compartilhados nesse raro momento em que me desapego do medo de minhas palavras