ser


um passinho passado,
um passado de cada vez

descompassado passo
passagens que deixei

Parei e olhei, ao longe, a forma ofuscada pelo sol. A forma não revelava mais que a infinita distância incompreendida entre meus passos e aqueles passos. Seguia-a. Não sabia porquê. Mas a seguia. Difícil compreender essas atitudes insanas, impensadas. Seria eu um tolo em perseguir uma forma que, num impulso, num lapso de insensatez, me causava desejo, me atraía e, pouco a pouco, guiava-me para lugares inimagináveis? As consequências eram imprevisíveis, bem sabia eu. A razão não me abandonara de todo, logicamente. Pentelhava-me a cada esquina dobrada, a cada parada de ônibus. Sim, porque a perseguição não se dava de forma contínua, nem unicamente neste dia. Já há muito tempo que a via passar e, distraidamente, me pegava a persegui-la, sem mais nem porquê. Para que os porquês? De fato, nem sei exatamente quando essa perseguição começou. Momentos houve em que cansei de persegui-la, de buscá-la em meio à multidão de formas. Essa forma. Essa forma que vos digo. Não tem rosto. Não tem nome. Não a conheço. Mas ela me conhece, isso eu sei. Sei porque sinto o seu perfume pretérito quando passa e me ponho a persegui-la. Naquele exato momento em que, apenas de costas, de forma embassada, onde mal consigo perceber alguns traços de sua feição, ela derrama todo seu mistério e preenche um vazio que me atormenta e me aflige. Seria essa a razão para tamanha obsessão?
Nunca fui dado a essas loucuras, à impulsividade. Perdido em meio ao vácuo existencial, a razão sempre imperou como senhora dominadora, mãos-de-ferro da minha forma de agir e, quiçá, sentir. Mas esse vazio sempre foi um incômodo. E agora esse acontecimento estranho, essa percepção fugaz, essa forma indecorosa e invasiva que me toma e me encanta, tal qual a canção dos dias vividos que não vivi. Onde irei parar com essa história? Onde me levará essa senhora, inalcançável por minha timidez ou insegurança? Olho ao redor, mais uma vez estou só. Mais uma vez o vazio. Enquanto devaneava nesse caderno velho, ela mais uma vez sumiu. Entre as formas que transitavam na calçada em frente, entre o vendedor de quinquilharias e o moleque que passava a correr.
Para onde vou?

(deve continuar em breve…)

perdeu a fala
o dom da fala
hoje, catatônico
mil vozes falam por si
e todas balbuciam
a dor e o prazer
- de viver

e, embora pareçamos andarilhos sem rumo
um dia veremos que apenas crescemos o bastante
a ponto de não enxergarmos mais as raízes que
ora nos prendem, ora nos alimentam

ele: é isso!?
ela: sim, é…
ele: tem certeza?
ela: não, mas… é o certo, não é!?
ele: não sei… diria que não… mas você me confunde…
ela: se não for, descobriremos.
ele: poderá ser tarde.
ela: já é tarde.
ele: sim… é.
ela: então… vamos?
ele: …
ela: bom, posso te deixar aqui, por mais um tempo, ruminando rumores e humores…
ele: hum…

andarilho da estrada que leva ao nada
enxerguei no caminho saídas tangentes

entrando em umas
desvencilhando de outras

segui em frente

hoje vejo que todas aquelas saídas
convergem para a mesma estrada
a estrada que leva ao nada

onde andarão as manhãs nervosas
que alimentavam a alma
que traziam o desejo da eternidade

o vazio interior
obcecado por descobertas

onde andarão
os irmãos de mãos dadas
vociferando esperanças
acalentando as angústias

num vórtice ensandecido
de ilusões malfadadas
é aí que estão
é aí que estamos

gabriel fernando

chore, menina
chore para abafar
a chama que queima teu coração

desperte, menina
desperte para se libertar
do sonho que enreda sua vida

fuja, menina
fuja para se esconder
do desejo que sufoca seu ser

reze, menina
reze pela resignação
daquele que te quer

l e m b r a n ç a s

desfocadas
desfalcadas
impertinentes
intransigentes

l e m b r a n ç a s

de fatos
de sonhos
entreabertos
rompidos
com um decreto

l e m b r a n ç a s

do toque
do sorriso
dos lábios
objetos
abjetos

l e m b r a n ç a s

belas
fotografias
recortadas
da vida

o de peito reprimido
em meio a apaixonados

o que pinta o sol de azul
e o céu claro fica estrelado

o caricato ser
numa prece desesperada

o crepúsculo marginal
de uma aurora angustiada

o amor que nasce
d’um sorriso acabrunhado

o segredo que se confia
sem que seja contado

o de cabelos desgrenhados
na foto 3×4

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