o de peito reprimido
em meio a apaixonados

o que pinta o sol de azul
e o céu claro fica estrelado

o caricato ser
numa prece desesperada

o crepúsculo marginal
de uma aurora angustiada

o amor que nasce
d’um sorriso acabrunhado

o segredo que se confia
sem que seja contado

o de cabelos desgrenhados
na foto 3×4

não vou entender
se você não explicar
com todas as letras
o porquê

você se recusa
alega
“você nunca entenderá
se eu tiver de explicar”
 
de fato
nem eu posso
entender

de fato
nem você
pode explicar

palavras
simples assim
complexas assim
não explicam

confundem
atordoam
magoam
destroem

reivindico o silêncio
você
aceita o silêncio

covardia
coragem
medo

adeus

Mas todas as cartas de amor são ridículas. Essas palavras ecoavam em seus pensamentos. Esforçava-se por se livrar delas, mas voltavam como no movimento elíptico que os planetas mantêm em volta de um sol tão insignificante quanto o que nos aquece. E era como essas cartas que ele se sentia: ridículo! Pior que isso, sentia-se muito mais como o planeta que circula ao redor do insignificante sol. Há alguns dias não era essa sensação de ridícula insignificância que o afligia, sentia-se como o melhor dos seres, o mais amado, o mais bem-quisto. Palavras de amor, declarações… Ridículas proezas literárias… Tragiversos! – de trágico mesmo. Gostaria de poder, agora, culpá-la, julgá-la, sentenciá-la e puní-la. Mas como fazer tudo isso sem culpar-se, julgar-se, sentenciar-se e punir-se pelo mesmo crime? É o mal do amor, cada um sente de uma forma, e cada qual quer ter o seu quinhão. Terreno malfadado e injusto esse, terra de deleites etéreos. Andava cabisbaixo, guerreando com seus pensamentos. Na sua mente um universo inteiramente diverso se formava, não tão diverso, é verdade, mas alheio à totalidade da realidade, já que nada mais era que uma pífia representação de tudo que ele conseguia interpretar do mundo que lhe rodeava. Nesse momento, a região mais consciente dos seus pensamentos alongava um imenso mar no horizonte e ele se via, com ela, em um mirante, observando o oriente, pareciam estar sozinhos, mas a verdade é que centenas de outras pessoas os rodeavam, centenas de pequenos pensamentos, só esperando pelo momento de intervir na conversa, atrapalhar, dar uma luz, um insight, ou simplesmente tropeçar e rolar mirante abaixo, destroçando-se maravilhosamente. Exatamente nesse momento ele observava aquele imenso mar azul estendendo-se até onde os navios caem vertiginosamente lentos, onde o céu deixa de ser teto para ser um mísero rodapé, e ele cá, tentando articular as palavras, transformando desvarios em explicações sobre os porquês da vida, dando ao seu sol uma chance de lhe dar mais uma chance. E ela sempre com uma saída inexplicável para os não-porquês da vida. Ele sim, ela não, ela talvez. Não, não, com certeza não, mas talvez. E nesse sim, nesse não, nessas sobras de talvez, o seu pequeno universo, talvez só um pouco maior do que o universo que todos nós compartilhamos, ia se desfiando em uma miríade de pensamentos cada vez mais confusos e sem razão de ser. Ali, naquele mirante eterno, as palavras saíam com dificuldade. Não é fácil explicar o inexplicável, ainda mais para si mesmo.

Esse texto está incompleto, é apenas um rascunho. Não gostei do final e provavelmente, se algum dia retomar sua redação, ele será alterado…

Uma noite quente, como a maioria das noites nessa cidade requentada e sem tempero. Uma saída para comprar cervejas e qualquer outra coisa que desse sentido a uma vida tão sem sentido, uma vida sem sentido como qualquer dessas avenidas mal-sinalizadas e com pobreza e miséria a dar e vender. Silêncio, luzes de postes. Pisca, pisca, pisca. Pisca a noite com carros de polícia a fazerem ronda. A segurança está garantida. A segurança de quem? Me pergunto… Anda, anda, anda. Os postos de gasolina trazem a marca do combustível que pode abastecer nossa noite. Caro, caro, caro. O dinheiro não compra mais o mesmo que comprava há um ano. Tudo está caro. Compra, compra, compra. Temos que beber. Há sentido nessa vida? Será a discrepância psíquica o sentido? Cadê, cadê, cadê? Bebemos e o sentido continua o mesmo: o nada para o nada em direção, sempre, ao nada. Nada, nada, nada. Caminhamos. Uma blitz pára os carros.
- Pára, pára, pára. Encosta, encosta, encosta.
- Ahn. Como assim?
- É isso mesmo, vocês, agora, encosta, encosta, encosta.
Encostamos, não somos carros, não somos motos, mas encostamos. Dos carros ninguém desce, ninguém é revistado. “CNH, senhor.” “Aqui está.” “Pois não, tudo certo, pode seguir, obrigado, boa noite.” E nós? Nós “é” isso. Revista, revista, revista. Baculejo, baculejo, baculejo. Mãos na cabeça. O policial começa. Começa “puliça”. O que se vê a seguir é a descrição erótica do crime de viver. Mãos na cabeça. O “puliça” começa. Mãos deslizam com uma suavidade bruta pelos cabelos, baixa meus braços, alisa minha cabeça suavemente. Desce. Desce, desce. Vai para debaixo dos braços. Tapinhas afáveis e amigáveis vão acariciando a pele. Chegam à cintura. Nada do que ele desejava encontrar estava ali. Acima da cintura? Nada. Desce, desce, desce. O acariciar da cintura, o vai e vem das mãos, esquerda, direita, frente e verso, é isso que eles querem? Desce, desce, desce. Chegam à região tão guardada desde anos de viver. Guardada para amores, para rancores, para dores. Ele pega por baixo e por trás, mas a intenção é alcançar a frente. Milimetricamente, por milissegundos. É isso. Alcança, vagarosamente, os dois bagos que guardam minha potencial prole, suavemente subindo com as mãos os alcança. Bate de forma bruta. Suave, mas bruta. E é isso, sossegado por conferir que meus bagos estão no lugar, que posso manter minha prole em segurança e para todo o resto da pífia vida humana, o incauto ser continua o processo erótico de verificação da segurança de nossas vidas. Desce, desce, desce. Terá gostado do que sentiu? Mas desce, desce, desce.
- É apenas rotina, senhor.
Coxas, coxas, coxas.
- Satisfeito?
- Não, não, não.
Joelhos, canelas e por que não olhar para os glúteos? Desce, desce, desce.
- Acabou, senhor!
Viro-me e vejo meus camaradas passando pelo mesmo processo. É. A promiscuidade na polícia é assim mesmo. Não sou o único. Eles querem tudo, todos e todas. E os baculejos continuarão, porque, afinal de contas, o que importa é a satisfação erótica da segurança nacional.

Câncer, nome comum da neoplasia maligna, é uma doença caracterizada por uma população de células que cresce e se divide sem respeitar os limites normais, invade e destrói tecidos adjacentes, e pode se espalhar para lugares distantes do corpo, através de um processo chamado metástase.

Humanidade, nome comum dado ao conjunto dos humanos, é um grupo caracterizado por uma população de Homo sapiens sapiens que cresce e se divide sem respeitar os limites normais, invade e destrói comunidades adjacentes, e pode se espalhar para lugares distantes do planeta, através de um processo chamado desenvolvimento.

Essa cidade me condena. Me condena ao atraso. “Que tempo mais vagabundo é esse que escolheram pra gente viver?”, diz a letra da canção. Um transeunte passa. Cabeleira desvairada, camisão até o joelho, sujo, imundo. Um mendigo. O dono da banca ri, com o companheiro ao lado, fitando o transeunte. O que há de divertido em um mendigo? Essas pessoas me condenam. Me condenam ao atraso.

[...] É pq eu não consigo enxergar o amor… Não o vislumbro… Acho-o tão efêmero que confundo-o com a paixão. Mas eu quis dizer isso que vc disse, e pra mim paixão é isso, uma vontade intensa de fundir-se com o outro, de conhecê-lo de cabo a rabo, de norte a sul, de leste a oeste, sugá-lo como o beija-flor suga a flor, de consumí-lo em segundos, de perder-se no vácuo do universo, uma coisa louca de querer guardar aquele ser dentro do seu peito, como se este órgão chamado coração fosse o mais confortável e seguro dos ambientes, imiscuir-se de tal forma com o outro que seria tal qual diz a letra da música, ’sombra no lençol que tateia a pele fina’1, teria coisa mais intensa que essa? Não sei, não sei.
Acho que
’sonhar pó na mina’, ’sonhar com britadeiras’, é sonhar com a intensidade, com o calor, com a paixão que lhe consome… Afinal, o ‘pó na mina’ é o que restou das máquinas que consumiram, lapidaram, dilaceraram as pedras, não é!?

1 – Música ‘Noite Severina’ de Lula Queiroga e Pedro Luís

a noite silencia… vadia… ela me cala
o peito insiste em ir e vir…
as garrafas rolam
não há nada que as cale…
para elas a noite é só noite
o dia vai se aproximando
e a noite se cala mais e mais
um silêncio angustiado
a manhã se aproximando
e todos dormem
mas as garrafas rolam… rolam…
se não em si
rolam dentro de quem as consumiu…
e elas rolam… rolam e rolam…
a noite pesa…
o silêncio pesa…
uma noite insustentável…
o que é a noite?
as horas passam e o tormento arrefece toda e qualquer possibilidade de esperança…
é só a luz de um novo dia…
a luz que insiste em não aparecer
a luz que hesita
a luz que tem hora marcada
o que é o sol se não a hora marcada de todo o fim de madrugada?
a luz ainda não chegou…
a luz ainda está longínqua…
a luz não chegou…
como nossos sonhos… eles nuncam chegam…
sempre a penumbra não identificada de nossos sonhos…

 

escrito em 25 de setembro de 2006

A luz do sinal me paralisa. Essa luz verde que me diz: “siga!”, “siga!”. Seguir para onde? Para onde seguir? “Siga!” “Siga!” E eu nesse arrebatamento, sem saber para onde ir, do que me desviar, nem sequer onde cair… As luzes da cidade não passam de sinais. “Perigo!” “Siga!” “Atenção!” “Pare!” Parar!? Por que parar? Parar onde? Sob as luzes dos postes de iluminação? Ou na escuridão das ruas desertas tomadas pela noite escura, esta mesma noite que me assola e me protege? “Perigo!” “Perigo!” “Perigo!” Quem me grita “perigo”!? As luzes azuis e vermelhas que piscam nas incessantes noites de ronda em busca da inocência culpável? Ou serão os vaga-lumes que insistem em piscar sua parca luz na cidade escancarada? Me vejo no reflexo da janela do coletivo. Parado! Andando! Em perigo! Ali no reflexo me vejo. Será que me vejo como os outros me vêem!? Desço do coletivo, minhas pernas me movem, para onde? Para onde elas me levam? O lar! É esse o lugar. O lar! Mas não é lá onde me sinto mais estranho!? Pai, mãe, irmão! Estranhos! Quem sou eu? Quem são eles? E essa cidade!? E essas grades que me cercam!? Atordoado, fecho-me dentro de mim, grito num grito calado. Tremo num tremor invisível. Alguém me acena. Quem!? Um estranho. Um estranho que sabe quem sou. Fecho-me! Isolo-me! Ergo cercas invisíveis ao meu redor. Intransponível!? Talvez! Cá estou fechado! Um muro pálido! Coberto por sinais! Por luzes! Que gritam! Gritam! Gritam! E abafam minha voz… Minha voz que grita! Grita por liberdade! Grita por algo perdido no tempo, no espaço, no abraço que não mais abraça. Já é chegado o portão. O portão da velha casa. 21 anos! É esse o tempo em que há tanto cheiro o ar dessa casa. Que cheiro terá ela? Entro avidamente. Parto para o meu quarto, última muralha que se ergue. A luz agora parte do teto. Contínua, pálida. Grita para mim! Grita! Gritam os fantasmas de todos esses anos. Gritam: “ele voltou”.

Só um sentimento me incomoda, este sentimento é a solidão. É o único que eu não posso controlar. Posso evitar amar alguém ou não. Posso controlar meus níveis de felicidade ou tristeza. Liberar ou conter meu ódio, mas a solidão foge ao meu controle. Posso amar alguém sem ser correspondido, posso odiar alguém que nunca vi, Posso ficar feliz por estar vivo, bem como triste por ainda não ter partido. Mas a sensação de estar só, de não ter alguém com quem contar em alguns momentos, este sentimento, sim, eu não posso controlar. Depende tanto das pessoas que me rodeiam e justamente por isso foge-me ao controle.

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