A luz do sinal me paralisa. Essa luz verde que me diz: “siga!”, “siga!”. Seguir para onde? Para onde seguir? “Siga!” “Siga!” E eu nesse arrebatamento, sem saber para onde ir, do que me desviar, nem sequer onde cair… As luzes da cidade não passam de sinais. “Perigo!” “Siga!” “Atenção!” “Pare!” Parar!? Por que parar? Parar onde? Sob as luzes dos postes de iluminação? Ou na escuridão das ruas desertas tomadas pela noite escura, esta mesma noite que me assola e me protege? “Perigo!” “Perigo!” “Perigo!” Quem me grita “perigo”!? As luzes azuis e vermelhas que piscam nas incessantes noites de ronda em busca da inocência culpável? Ou serão os vaga-lumes que insistem em piscar sua parca luz na cidade escancarada? Me vejo no reflexo da janela do coletivo. Parado! Andando! Em perigo! Ali no reflexo me vejo. Será que me vejo como os outros me vêem!? Desço do coletivo, minhas pernas me movem, para onde? Para onde elas me levam? O lar! É esse o lugar. O lar! Mas não é lá onde me sinto mais estranho!? Pai, mãe, irmão! Estranhos! Quem sou eu? Quem são eles? E essa cidade!? E essas grades que me cercam!? Atordoado, fecho-me dentro de mim, grito num grito calado. Tremo num tremor invisível. Alguém me acena. Quem!? Um estranho. Um estranho que sabe quem sou. Fecho-me! Isolo-me! Ergo cercas invisíveis ao meu redor. Intransponível!? Talvez! Cá estou fechado! Um muro pálido! Coberto por sinais! Por luzes! Que gritam! Gritam! Gritam! E abafam minha voz… Minha voz que grita! Grita por liberdade! Grita por algo perdido no tempo, no espaço, no abraço que não mais abraça. Já é chegado o portão. O portão da velha casa. 21 anos! É esse o tempo em que há tanto cheiro o ar dessa casa. Que cheiro terá ela? Entro avidamente. Parto para o meu quarto, última muralha que se ergue. A luz agora parte do teto. Contínua, pálida. Grita para mim! Grita! Gritam os fantasmas de todos esses anos. Gritam: “ele voltou”.

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