Mas todas as cartas de amor são ridículas. Essas palavras ecoavam em seus pensamentos. Esforçava-se por se livrar delas, mas voltavam como no movimento elíptico que os planetas mantêm em volta de um sol tão insignificante quanto o que nos aquece. E era como essas cartas que ele se sentia: ridículo! Pior que isso, sentia-se muito mais como o planeta que circula ao redor do insignificante sol. Há alguns dias não era essa sensação de ridícula insignificância que o afligia, sentia-se como o melhor dos seres, o mais amado, o mais bem-quisto. Palavras de amor, declarações… Ridículas proezas literárias… Tragiversos! – de trágico mesmo. Gostaria de poder, agora, culpá-la, julgá-la, sentenciá-la e puní-la. Mas como fazer tudo isso sem culpar-se, julgar-se, sentenciar-se e punir-se pelo mesmo crime? É o mal do amor, cada um sente de uma forma, e cada qual quer ter o seu quinhão. Terreno malfadado e injusto esse, terra de deleites etéreos. Andava cabisbaixo, guerreando com seus pensamentos. Na sua mente um universo inteiramente diverso se formava, não tão diverso, é verdade, mas alheio à totalidade da realidade, já que nada mais era que uma pífia representação de tudo que ele conseguia interpretar do mundo que lhe rodeava. Nesse momento, a região mais consciente dos seus pensamentos alongava um imenso mar no horizonte e ele se via, com ela, em um mirante, observando o oriente, pareciam estar sozinhos, mas a verdade é que centenas de outras pessoas os rodeavam, centenas de pequenos pensamentos, só esperando pelo momento de intervir na conversa, atrapalhar, dar uma luz, um insight, ou simplesmente tropeçar e rolar mirante abaixo, destroçando-se maravilhosamente. Exatamente nesse momento ele observava aquele imenso mar azul estendendo-se até onde os navios caem vertiginosamente lentos, onde o céu deixa de ser teto para ser um mísero rodapé, e ele cá, tentando articular as palavras, transformando desvarios em explicações sobre os porquês da vida, dando ao seu sol uma chance de lhe dar mais uma chance. E ela sempre com uma saída inexplicável para os não-porquês da vida. Ele sim, ela não, ela talvez. Não, não, com certeza não, mas talvez. E nesse sim, nesse não, nessas sobras de talvez, o seu pequeno universo, talvez só um pouco maior do que o universo que todos nós compartilhamos, ia se desfiando em uma miríade de pensamentos cada vez mais confusos e sem razão de ser. Ali, naquele mirante eterno, as palavras saíam com dificuldade. Não é fácil explicar o inexplicável, ainda mais para si mesmo.

Esse texto está incompleto, é apenas um rascunho. Não gostei do final e provavelmente, se algum dia retomar sua redação, ele será alterado…

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