Quando vier, venha assim, de mansinho, em passos de suave animal a atocaiar sua presa. Calma, meiga, sem grosseiras insinuações. Que seu olhar não me toque a carne, mas o confuso espírito. Que traga em suas belas pupilas a interrogação de quem sou, do que quero, do que queres em mim.

Suave, sim, suavemente. Acariciando as emanações que só minha ansiedade pode exalar. Não me venha com toques absurdos, não me abrace como se fosse hoje nosso último dia. Não gostaria que o fosse. Por que haveria de ser? É necessária a infinitude do tempo para tocar outro ser, para alcançar-lhe o âmago, envolvido em séculos de lembranças e sonhos.

Antes me olhe, me amanse, me acalme, deite-me um sorriso despretensioso, ouça minhas tolices como criança a descobrir o mundo. Adie o toque, adie a exasperação dos vendavais a sacudir as flores, a arrancá-las o pólen.

Quando vier, que venha assim, seja a leve brisa, sussurando em minha pele a história dos teus dias. Envolva-me em sua doce harmonia. Não me faça pássaro encarcerado, mas antes o sabiá a te cantar a manhã. A te esperar como quem espera os raios da aurora para se aquecer.

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