Resistia ao banho. O tempo escorria, mesmo com o relógio da cozinha parado há mais de um mês – por sua preguiça de trocar a pilha -, o tempo escorria. O relógio da mesinha não parava, indicando a todo instante a hora que seguia. Levantou-se a custo e se arrastou até o chuveiro. Pacientemente se molhou, abriu o xampu – vazio. Raspou todo o restinho que tinha e esfregou o cabelo, barbeou-se com calma e paciência. O ânimo voltava pouco a pouco. Pensou porque resistiu tanto ao banho, perdendo tanto tempo. Verificou a cara no espelho. Tudo em ordem, os mesmos defeitos de sempre. A barba rala e malformada, raspada. Ajeitou o cabelo e pôs-se a pensar na hora que deveria sair. O tempo continuava passando. Sentou-se a ver o jornal, esperando o tempo passar. Tomou um café. A ansiedade lhe tomava. “Não sei para que insisto nesse eventos pra cumprir formalidades. Para que as pessoas fazem isso? Os momentos intimistas são muito mais importantes e os perdemos em prol dessas superficialidades…” – pensava, irritado. Olhou para a pilha de livros que deveria ler durante a semana. Pensou que nada fazia sentido, nem os livros, nem as formalidades, nem os momentos intimistas. Afundou-se no sofá. Soltou um muxoxo. Ainda havia muito tempo até a hora de sair. Percebeu que o evento era demasiado tarde. Pensou bastante sobre o significado daquilo tudo. Formalidades, formalidades, formalidades. Cumprir tabela. Ocupar lugar em uma cadeira. Esboçar sorrisos forçados. “Por que não algo mais tranquilo? Onde se possa conversar em paz e devanear sobre a importância dos astros na criação dos mitos? Sobre as surpresas da natureza ou as aspirações humanas por poder e poesia?” – já frustrado e chateado, olhava para os filmes na estante. Quisera ir ao cinema e desistira para não se atrasar. Mas e agora? Um momento para si, vendo um bom filme, sincero consigo mesmo, seria mais importante que um momento de trocas superficiais de cumprimentos? Levantou-se, passeou a vista pela estante, pelos diversos filmes que ainda não vira, estendeu a mão… Já não havia mais formalidades ou sorrisos forçados, a noite se esvairia pelos olhos de outros e por cidades e tempos distantes.

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