O menino achava que o mundo era do tamanho da sua casa e de seu quintal. Miúdo, no colo de sua mãe. Aquilo tudo era o mundo. O menino achava que o mundo ia até a rua vizinha, onde moravam seus tios e seus primos. Era uma rua pequena, de barro. O menino achava que o mundo ia somente até onde seus avós moravam. Contando ruas, passavam-se umas oito até chegar lá, nesse mundo mais mundo, limite do mundo: a casa de seus avós. O menino achava que o mundo ia até sua escola, no bairro vizinho, treze ruas e duas praças no caminho. O menino achava que o mundo ia até o que disseram ser uma outra cidade, ali do lado, uma hora rodando de carro, até chegar no sítio de uns amigos de seus pais. Era um “mundo mais mundo”, concordava ele, respirando fundo, com orgulho. Um “mundo mais mundo”. O menino, já agora não tão menino, começava a aprender geografia, e já sabia que o mundo era redondo, e ia bem mais além de onde ele podia ver, no horizonte. O mundo era mundo. O menino, já não tão menino, começava a compreender que o mundo nem sempre foi mundo. E que o mundo não nasceu com o menino. O menino, não tão menino, começara a aprender história, começava a compreender que para além do mundo, para além do horizonte, havia muito mais mundos, mundos dentro do mundo, que nem sempre foi mundo, nem sempre foram mundos. O menino, não mais menino, começara a estudar sociologia e filosofia, e a compreender que cada indivíduo guardava dentro de si um mundo, e que esses mundos se juntavam para formar novos mundos, e que dentro de si havia um mundo. Um importante mundo. O menino, que já não era mais um menino, já não conseguia mais enxergar um mundo, enxergava um sistema de mundos, um universo de mundos, que ultrapassava o físico, traspassava o tempo. O menino, já não mais menino, compreendeu, pela primeira vez, que nunca poderia compreender todo o complexo sistema em que vive, toda a complexa teia de eventos que o trouxe aqui e que, da mesma forma, o extinguirá. Compreendeu tudo isso com orgulho. E sem medo.

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