fevereiro 2012


Não te roubaram o tempo
Te aumentaram as oportunidades
Te deram casa, comida e um amor
Tudo a prazo, tudo a crédito
A conta veio no mês passado
A casa virá em 2 anos
Comida, vem em boa quantidade
Que de boca cheia não vais reclamar
E o amor se compra em boutique
Em lojas de conveniência
No bar da moda, basta uma propina

Não te roubaram o tempo
Apenas te cobraram a alma

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Desorientado
Totalmente desorientado
Perguntaram-me o que eu queria ser
O que eu gostaria de fazer
Eu errei o caminho
Quando deveria seguir em frente,
virei à esquerda.
Quando deveria seguir à esquerda,
resolvi voltar.
E a quem me perguntava se devia
seguir por ali, ou acolá
Eu, gaguejando, balbuciava
Segue por aqui, vira à direita
e pergunta lá na frente

Se ele gostasse daquela sua verruga. Ou daquele pequeno defeito no dedo mindinho do pé. Ou talvez de como os cabelos dela ficavam totalmente desarrumados ao vento. Quem sabe das espinhas que ela fazia questão de esconder. Ou até daquela gordurinha que ganhara no último ano. Quem sabe assim, gostando dessas pequenas coisas que convencionou-se tratar por defeitos, talvez só assim não teria acontecido todo o seu infortúnio. Ele apaixonou-se por seu sorriso, por seu brilho no olhar. Apaixonou-se pelo rótulo perfeito de sua embalagem. Atribuía-lhe elogios ao óbvio. Não conseguiu minar seu olhar para ir além, não ultrapassou a maquiagem, os produtos para o cabelo, a roupa metodicamente escolhida, ou seus tênis. Mirava sempre aquele sorriso. E, por não ir além, alcançou o que todos os outros alcançaram. Ela nunca encontrou alguém que admirasse seus pontos fracos. Eles nunca esqueceram seus pontos fortes.

Um dia a gente procura paz. Um dia a gente procura sossego. E, naquele dia, naquele dia só, naquele dia quente, com um vento que não adiava o calor, um vento que de nada servia, senão para invadir de poeira qualquer brecha de camisa, naquele dia ela percebeu isso. Vestiu-se levemente. Saiu à noite. Passear… Caminhar… Como há muito não havia feito. Sozinha… Quem diria… Só… Desde sempre com alguém. Desde que se entendia como gente… Mas desde quando se entendeu como gente? Nunca teve tempo de se questionar sobre quem era. O que fazia? Largou o texto pendente para entregar. Em um mês lhe cobrariam aquele texto. Um longo levantamento. Porcamente reconhecido por uma dúzia de indivíduos que mal se reconheciam… Mal se reconheciam entre si? Não… Mal se reconheciam no espelho. Dia pós dia levantando-se e tentando encontrar um motivo para o que fazia. Não seria aquela noite. Aquela noite seria medíocre como qualquer outra. E contentou-se com um filme na única sessão de arte da cidade. O espelho não lhe sossegava a alma.

Um dia, ainda, escreverei, com todas as letras, com todas as variações, maiúsculas, minúsculas, o teu nome, o nome da saudade. Escreverei com uma força tão demente que nenhuma palavra será menor, nenhuma palavra será maior. Mas… Pensando bem… Que adianta. São 26 letras. 26 caracteres! Tentando dizer o que sinto. São 26 caracteres… Em uma lauda? Duas laudas? Infinitas laudas! Não há verborragia que cruze o oceano pra te dizer… Pra te dizer o que é óbvio… Pra te dizer que…

O mar me secou. Sal! O mar me secou. Me secou as lágrimas. Me secou as razões. Me secou as emoções. O mar, mar você. Mar você de poesias. Mar você de amores. Mar você de razões. Mar você de emoções. Mar você. Você me secou.

É um mundo problemático. É um mundo corrupto e corruptível. Vendemos nossos melhores e mais belos sonhos por um trocado qualquer que nos permita fazer dívidas vultosas. Dívidas que nos embrutecem, nos envelhecem por dentro e nos tornam rabugentos.
Feições brutas e sofridas tinha a senhora que veio me pedir cinquenta centavos. Neguei. Seguiu sambando entre um e outro da praça. Conseguindo umas poucas moedas. Comprou um saco de pipocas para ela e o filho. Nunca antes havia visto sorriso tão belo e ingênuo em uma pessoa que não fosse criança.

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