Um dia a gente procura paz. Um dia a gente procura sossego. E, naquele dia, naquele dia só, naquele dia quente, com um vento que não adiava o calor, um vento que de nada servia, senão para invadir de poeira qualquer brecha de camisa, naquele dia ela percebeu isso. Vestiu-se levemente. Saiu à noite. Passear… Caminhar… Como há muito não havia feito. Sozinha… Quem diria… Só… Desde sempre com alguém. Desde que se entendia como gente… Mas desde quando se entendeu como gente? Nunca teve tempo de se questionar sobre quem era. O que fazia? Largou o texto pendente para entregar. Em um mês lhe cobrariam aquele texto. Um longo levantamento. Porcamente reconhecido por uma dúzia de indivíduos que mal se reconheciam… Mal se reconheciam entre si? Não… Mal se reconheciam no espelho. Dia pós dia levantando-se e tentando encontrar um motivo para o que fazia. Não seria aquela noite. Aquela noite seria medíocre como qualquer outra. E contentou-se com um filme na única sessão de arte da cidade. O espelho não lhe sossegava a alma.

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