Deveria a caixa esquecida no canto despertar curiosidade. E despertava. Volta e meia alguém se lembrava da caixa. A caixa que ninguém tinha a chave. Mas que ninguém arriscava arrombar. Uma pequena caixa, ornada, pertencente à avó. Um pequeno relicário, talvez. Ou apenas uma velha caixa cheia de bobagens. Ornamentada em azul. Belos tons de azuis. Com o passar dos anos a caixa ia sendo cada vez mais esquecida. Apenas uma ou outra pessoa, desabituada com o local, é que eventualmente aludia à caixa. Mas logo voltava-se ao esquecimento. A caixa se fazia esquecer. A caixa se fazia de santificada, de sagrada: a caixa ornada pela avó. Um dia venderam a casa e precisaram mover toda a mobília. Ao erguer a caixa do chão, subitamente o fundo cedeu e tombou com violência. Uma explosão de poeira ergueu-se imediatamente. Os que estavam presentes avivaram os olhos, em meio a acessos de tosse, e vislumbraram o que seria o conteúdo da caixa. Uma porção de velhas folhas de papel, desfazendo-se ao toque das mãos. Serviram de alimento para um sem número de gerações de traças. Agora não mais se saberia o que tinha sido escrito naquelas velhas folhas. A velha caixa azul foi jogada a um canto da rua, e a velha avó abandonada sem suas memórias.

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