Assustou-me quando disse ter apenas uma pedra no peito. Era alta noite, e muito havia-se bebido. Papo de bêbado é assim mesmo. “Nunca mais volto a amar, nunca mais volto a me apaixonar”. “Balela”, eu disse. Ela insistia, e entre um gole e outro falava absurdos da vida. Absurdos que eu já havia ouvido de umas trocentas outras pessoas. Oh, ladainha repetitiva esta de noites boêmias. Aguentei firme aqueles lamentos até umas tantas da madrugada, quando a paciência estourou-me e os cigarros acabaram: “Olha, a pedra no teu peito é da tua conta, tenho que ir, a noite já deu”. Ela olhou-me manhosa, abusada como de si mesma. No fundo, creio, ela esperava que eu tentasse provar que nada havia de pedra naquele peito arfante. Talvez, vá lá, uma pedra preciosa, ou um frágil cofre gelado. Mas quem iria tentar descobrir? Deixei a mesa com uns tropeços. Apanhei o primeiro táxi e segui rumo. A verdade é que nunca levei jeito pra mineiro.