Acordei angustiado com o violento desferir sonoro do despertador. O som de milhares de pés pisavam as ruas, as calçadas. Era uma marcha, era uma marcha! Não era o despertador. Levantei, ansioso, era um bloco de carnaval, uma procissão, ou o povo a fazer a revolução? Corri para a janela, milhares de cabeças passavam. Precipitei-me à porta, larguei-me na calçada, tentei interpelar um, dois, três, ninguém ouvia, ninguém respondia. Fui acompanhando a grande massa, perplexo. Mais e mais pessoas se amontoavam, seguiam em direção à praça, à grande praça, palco de tantas manifestações. Era o povo agigantado, o povo esperançado, era o novo alvorecer. A aurora da Estrela Radiosa. A ansiedade alvoroçava meu peito, me impedia de raciocinar direito. Os olhos pouco enxergavam. A praça, cada vez mais próxima. Embora não percebesse o fim ou o início da multidão, bem sabia que a praça era o ponto final. A um grito uníssono, o grande prédio iria desabar, as máscaras seriam depostas no chão. A tirania oligarca chegaria ao fim. Aguardei ansioso, fui chegando mais próximo. Começava a enxergar homens amarrados, homens ajoelhados no chão. Enxergava ao longe um palanque, um palanque de madeira. O povo urrava, o povo pedia, o povo gritava, o povo ensandecido. Uma corda, um laço. Um pescoço, uma camisa vermelha. Uma camisa vermelha, um símbolo. Alguém lia uma declaração. Acusações. Várias acusações. O crime? Exigir mudanças. Lutar por mudanças. A sentença? A morte, por traição. Traição a quem? Ninguém se questionava. O povo urrava, o povo pedia, o povo gritava, o povo ensandecido. O chão cedia, o corpo despencava, a multidão se calava, a esperança emudecia.

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