Eu não podia assumir para Manuela o verdadeiro motivo de deixá-la. Era bastante torpe. Preferi utilizar um motivo idiota qualquer. Um motivo padrão. “Não é você, sou eu”! Deveria haver cartões espalhados por todas as bancas de revista com estes simples dizeres. Pouparia minha saliva e minha caligrafia. E, no final, todos sabemos: é uma grande mentira. Sim, é sempre o outro, nunca nós mesmos, todos sabemos. Talvez o cartão pudesse vir com um “vale-chocolate”. Ou um “vale-cachaça”. Enfim… A questão é que seria ridículo demais dizer que a deixava porque não mais suportava seu café! Sua ridícula mania de reutilizar o café da manhã à noite, e o da noite pela manhã, e assim sucessivamente. Talvez ali ainda estivéssemos tomando resquícios do primeiro café de nossa vida juntos. Naquele conjugado. Nunca tive coragem de falar que detestava aquilo. Nunca tive coragem de entornar o café. Nunca tive coragem de passar eu mesmo o bendito. Mas a verdade é que nunca poderia passar minha vida com alguém que estragasse com tanto requinte algo tão simples quanto um café. Arrumei as malas, joguei as palavras. E fui na padaria da esquina tomar um café. O maldito café rançoso e cheio de açúcar da padaria da esquina. Merda de maneira de começar uma nova vida.