olhe os sinais na estrada. todos eles dizem ‘siga em frente’. siga. em. frente. olhe os sinais, renato, olhe os sinais. não perca a entrada. será à esquerda? será à direita? na primeira, na segunda, na terceira entrada? renato, tanto que te digo, cara, olhe os sinais na estrada. e você, você, sempre, sempre, com a cara pro nada. lembro, agora, de um dia, na faculdade, insistia em irmos embora, mas você defendia o tempo, seu amigo, seu parceiro. insistia, repetindo, ladrando versos, que o tempo era seu companheiro. não sei, renato, não lembro, quando viramos a página, e você seguiu livro novo, nova narrativa, verso solto, poesia de vagamundo. ou esse era nosso livro, e eu que caí pela borda, chão pesado, palavra pétrea, em concreto sufocado. olha, renato, onde estás indo, os sinais da estrada, os sinais, renato, todos eles dizem ‘siga em frente’. armadilha do tempo, renato? teu companheiro cegando teus passos? renato, presta atenção, renato, à esquerda, você deve entrar à esquerda. lembra? a estrada do velho sítio. agora recordo, renato, do dia em que, cabisbaixo, chutava pedras na rua. noite fria, rara nessa cidade tão quente. você correu até mim. era um dia difícil. conversamos por longo tempo. um ano sem contato. você não tinha mudado. ou talvez, teu companheiro, tempo, tenha me roubado uns longos anos, e entregue em tuas mãos. renato, vê, está escurecendo, e os sinais na estrada começam a refletir os faróis. ‘siga em frente’, ‘siga em frente’. renato, o percurso é longo. você lembra? mas quantas horas já dura esta viagem? é noite, renato. a entrada não tem iluminação, não tem sinalização. uma velha entrada à esquerda, coberta de mato, com uma jaqueira ao lado. quantos anos, renato? renato… é noite. escureceu. está frio. teus amigos te esperam, renato. mas você não retorna. deu braços ao tempo. ao teu tempo. e esse é um caminho sem volta. siga em frente.

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