Qual o caminho a seguir?
Já tanto há dito sobre isso
E nada há dito
não há caminho
Não há verdade
Não há nada que leve
à felicidade ou à tristeza
E tantas vozes gritam
por deuses, por verdades,
por negações, por amores
Há tanto… E tanto, tanto
Tanta gente, tantas vozes
Tantas letras, tantas imagens…
Vivemos na era das imagens
Fotografias
“Recortadas de jornais de folhas
amiúde”
É a era das imagens
Fotografias, gravuras, lápis que perpassam
folhas a perder de vista
É um vazio enorme a preencher
Não sei…
O que preenchemos? O vazio?
Ou o vazio nos preenche?
Quem envolve quem?
Tanto desespero
De lá e de cá
Dos com e dos sem
Desespero de quem tem?
Desespero de quem quer ter?
Chegamos num ponto comum?
Não sei para onde ir
Do lado de lá, alguém compra
uma passagem
Para viver, para passar,
daqui 500 milhas
daqui para o nada
A saudade vai perdurar
Desse pedaço de cá
Desse pedaço?
Não, talvez não
A saudade vai perdurar?
Ou a tristeza, a impotência,
de não ter conseguido mudar?

olhe os sinais na estrada. todos eles dizem ‘siga em frente’. siga. em. frente. olhe os sinais, renato, olhe os sinais. não perca a entrada. será à esquerda? será à direita? na primeira, na segunda, na terceira entrada? renato, tanto que te digo, cara, olhe os sinais na estrada. e você, você, sempre, sempre, com a cara pro nada. lembro, agora, de um dia, na faculdade, insistia em irmos embora, mas você defendia o tempo, seu amigo, seu parceiro. insistia, repetindo, ladrando versos, que o tempo era seu companheiro. não sei, renato, não lembro, quando viramos a página, e você seguiu livro novo, nova narrativa, verso solto, poesia de vagamundo. ou esse era nosso livro, e eu que caí pela borda, chão pesado, palavra pétrea, em concreto sufocado. olha, renato, onde estás indo, os sinais da estrada, os sinais, renato, todos eles dizem ‘siga em frente’. armadilha do tempo, renato? teu companheiro cegando teus passos? renato, presta atenção, renato, à esquerda, você deve entrar à esquerda. lembra? a estrada do velho sítio. agora recordo, renato, do dia em que, cabisbaixo, chutava pedras na rua. noite fria, rara nessa cidade tão quente. você correu até mim. era um dia difícil. conversamos por longo tempo. um ano sem contato. você não tinha mudado. ou talvez, teu companheiro, tempo, tenha me roubado uns longos anos, e entregue em tuas mãos. renato, vê, está escurecendo, e os sinais na estrada começam a refletir os faróis. ‘siga em frente’, ‘siga em frente’. renato, o percurso é longo. você lembra? mas quantas horas já dura esta viagem? é noite, renato. a entrada não tem iluminação, não tem sinalização. uma velha entrada à esquerda, coberta de mato, com uma jaqueira ao lado. quantos anos, renato? renato… é noite. escureceu. está frio. teus amigos te esperam, renato. mas você não retorna. deu braços ao tempo. ao teu tempo. e esse é um caminho sem volta. siga em frente.

no mundo
desmundo
sem rumo
desaprumo
volateio
no delírio
desassossego

Se há uma lembrança boa de infância é pegar fruta de quintal alheio e se deliciar. Vez ou outra era preciso ousadia, uma pedrada certeira, uma velocidade olímpica. Saltar muro, se rasgar no arame farpado, correr mais rápido que o piscar de olhos do velho do sítio da esquina. Manga, goiaba, pitanga, acerola, araçá, pinha, tudo era motivo para festa. Graviola, brinco-de-viúva, laranja, jambo. Nada escapava! Difícil mesmo era carregar a maldita da jaca. Sujeita pesada, nem três moleques pra levantar a dita cuja do chão. O jeito era mesmo esperar o convite do velho do sítio da esquina, que abria a jaca num piscar de olhos e servia pra molecada de olhos grandes se lambuzar.

Eu não podia assumir para Manuela o verdadeiro motivo de deixá-la. Era bastante torpe. Preferi utilizar um motivo idiota qualquer. Um motivo padrão. “Não é você, sou eu”! Deveria haver cartões espalhados por todas as bancas de revista com estes simples dizeres. Pouparia minha saliva e minha caligrafia. E, no final, todos sabemos: é uma grande mentira. Sim, é sempre o outro, nunca nós mesmos, todos sabemos. Talvez o cartão pudesse vir com um “vale-chocolate”. Ou um “vale-cachaça”. Enfim… A questão é que seria ridículo demais dizer que a deixava porque não mais suportava seu café! Sua ridícula mania de reutilizar o café da manhã à noite, e o da noite pela manhã, e assim sucessivamente. Talvez ali ainda estivéssemos tomando resquícios do primeiro café de nossa vida juntos. Naquele conjugado. Nunca tive coragem de falar que detestava aquilo. Nunca tive coragem de entornar o café. Nunca tive coragem de passar eu mesmo o bendito. Mas a verdade é que nunca poderia passar minha vida com alguém que estragasse com tanto requinte algo tão simples quanto um café. Arrumei as malas, joguei as palavras. E fui na padaria da esquina tomar um café. O maldito café rançoso e cheio de açúcar da padaria da esquina. Merda de maneira de começar uma nova vida.

voz se fera
seu grito
fera ferida

voz se fera
suas ilusões
coagidas

voz se fera
seu peito
amor fendido

voz se fera
suas teorias
discordantes

diz cordas
da dor
que passou

diz cordas
do amor
que amou

diz cordas
do caminho
sob abismo

voz se fera
diz cordas
do espelho

é no mar, é no mar
que se vê, que se dá
que contra a correnteza
não dá pra nadar

ê no mar, ê no mar
que se vê, que se dá
que tampouco
dá pra se deixar levar